Venezuela: como a crise mudou o país sob Maduro

A trajetória iniciada no governo Hugo Chávez passou por crise econômica, concentração de poder e repressão política antes de chegar à atual transição venezuelana.

Por Redação • 23/09/2026 10:32 • 79 acessos
Venezuela: como a crise mudou o país sob Maduro

A crise da Venezuela não surgiu de um único episódio. O país passou, ao longo de mais de duas décadas, por uma combinação de concentração de poder, fragilização institucional, forte dependência do petróleo e deterioração econômica. O processo começou durante o governo de Hugo Chávez e se aprofundou sob Nicolás Maduro.

Durante o período de Chávez, iniciado em 1999, o governo ampliou a presença do Estado na economia e promoveu nacionalizações e intervenções em empresas privadas. Ao mesmo tempo, mudanças no Judiciário contribuíram para reduzir os mecanismos de controle sobre o Executivo. A Human Rights Watch registra que a concentração de poder sobre a Suprema Corte começou ainda durante o governo Chávez e posteriormente foi ampliada.

A situação econômica se agravou depois da queda dos preços do petróleo e da redução da capacidade produtiva do país. A Venezuela, altamente dependente das receitas petrolíferas, passou a enfrentar escassez de alimentos e medicamentos, inflação elevada e perda do poder de compra. A crise econômica também alimentou uma forte deterioração social e aumentou o fluxo de venezuelanos que deixaram o país.

Com Maduro no poder a partir de 2013, o conflito entre governo e oposição se intensificou. Após a oposição conquistar a maioria da Assembleia Nacional em 2015, decisões do Tribunal Supremo reduziram progressivamente os poderes do Legislativo. Em 2017, o governo também promoveu uma Assembleia Constituinte formada por aliados, enquanto protestos contra o governo foram reprimidos pelas forças de segurança.

A deterioração institucional também atingiu o processo eleitoral. Em 2018, Maduro foi declarado vencedor de uma eleição presidencial marcada por denúncias de falta de condições equitativas para a oposição e questionamentos internacionais sobre a liberdade e a lisura do pleito. A Human Rights Watch apontou ainda que partidos e lideranças oposicionistas haviam sido enfraquecidos por medidas do governo.

O cenário venezuelano mudou novamente em janeiro de 2026, quando Nicolás Maduro foi retirado do poder em uma operação militar dos Estados Unidos e levado sob custódia americana. Delcy Rodríguez, que havia sido vice-presidente, assumiu posteriormente a presidência interina. Apesar da mudança no comando, integrantes importantes da antiga estrutura política e militar permaneceram em posições de influência.

Em setembro, Rodríguez passou a buscar acordos para reorganizar a economia venezuelana e renegociar a enorme dívida do país. Durante sua visita a Nova York para a Assembleia Geral da ONU, representantes do governo discutiram energia, mineração, financiamento internacional e reestruturação da dívida, estimada entre US$ 150 bilhões e US$ 200 bilhões.

A recuperação econômica, porém, continua cercada de dificuldades. Dados divulgados em setembro indicam inflação anual superior a 500%, enquanto o governo negocia novas formas de administrar as receitas do petróleo e tenta recuperar investimentos no setor energético. Também estão em andamento negociações envolvendo empresas estrangeiras interessadas em retornar ou ampliar operações na Venezuela.

A experiência venezuelana também aparece no debate político brasileiro de 2026, especialmente em discussões sobre polarização, confiança nas instituições e relação entre os Poderes. Pesquisas da Ipsos apontam que o Brasil chega ao atual ciclo eleitoral com elevada polarização política e baixa confiança em instituições, enquanto o Congresso ganhou maior peso nas negociações com o Executivo.

Há, porém, diferenças importantes entre os dois países. O Brasil possui uma economia mais diversificada, estrutura federativa, Congresso com atuação própria, eleições regulares e instituições que continuam funcionando dentro da ordem constitucional. Ao mesmo tempo, o país enfrenta conflitos entre os Poderes e aumento da desconfiança em relação a algumas instituições. Em setembro, pesquisa Datafolha registrou 48% de desconfiança em relação ao Supremo Tribunal Federal, enquanto a confiança em outras instituições apresentou comportamentos diferentes.

A comparação entre Brasil e Venezuela, portanto, envolve processos históricos e institucionais distintos. A trajetória venezuelana mostra como mudanças acumuladas na economia, no sistema político e nos mecanismos de controle do poder podem produzir consequências profundas ao longo do tempo. Em 2026, enquanto a Venezuela tenta reorganizar seu Estado depois da saída de Maduro, o Brasil atravessa seu próprio período de tensão política e eleitoral, mas dentro de uma estrutura institucional diferente.

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