O que podemos aprender com os professores do futuro

Dados do Inep e do Instituto Semesp revelam mudanças no perfil dos educadores e reforçam a necessidade de valorizar a carreira docente para garantir o futuro da educação.

Por Márcia Amorim Pedr'Angelo • 28/10/2026 08:23 • 41 acessos
O que podemos aprender com os professores do futuro

Todo professor foi, um dia, aluno de alguém. Antes de escolher a profissão, observou de perto um adulto que ensinava com paciência, que chamava cada criança pelo nome e que acreditava nela antes mesmo de ela acreditar em si. Por isso, ao encerrar o mês dedicado a quem ensina, gosto de olhar também para quem ainda vai ensinar. O que os professores do futuro podem nos ensinar desde já?

O retrato atual da profissão ajuda a responder. No Dia dos Professores, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) divulgou que o Brasil reunia 2.407.049 docentes na educação básica em 2025, cerca de 220 mil a mais do que uma década antes. São pessoas que sustentam, todos os dias, o direito de aprender de 46 milhões de estudantes.

Ao lado desse número, há um alerta que pede atenção. A pesquisa Apagão dos Professores, do Instituto Semesp, mostra que, entre 2015 e 2023, os docentes de até 24 anos no ensino médio diminuíram 31,1%, enquanto os de 60 anos ou mais aumentaram 104,5%. O dado revela o tamanho da responsabilidade que temos com essa profissão.

Cada professor que se aposenta leva consigo décadas de experiência, e cada jovem que escolhe a sala de aula precisa encontrar uma carreira reconhecida, com formação contínua e uma equipe com quem crescer. Valorizar quem ensina é garantir que haverá quem ensine.

Os professores que já estão em sala mostram para onde a profissão caminha. A Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (Talis), da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), revelou que 56% dos docentes brasileiros usam inteligência artificial para preparar aulas, índice acima da média de 36% dos países da OCDE. Essa é a primeira lição: quem ensina segue aprendendo, a vida inteira.

A segunda lição está naquilo que nenhuma ferramenta substitui. Gosto de distinguir informação de formação. Informação é o que uma tecnologia organiza e entrega em segundos. Formação é o que acontece entre duas pessoas, quando um adulto percebe que a criança chegou mais calada, sustenta um combinado com firmeza ou espera o tempo necessário para que ela encontre a própria resposta. Quanto mais a tecnologia avança, mais o papel humano do professor ganha importância. Afeto, disciplina e autonomia continuam sendo ensinados na relação.

Ao completar 20 anos, o Toque de Mãe me faz perceber que os professores do futuro já passaram por nós. As crianças que chegaram às nossas salas em 2006 hoje são adultas, e algumas certamente estão escolhendo a docência. Outras estão, agora, explicando um exercício a um colega, resolvendo um problema real no programa de educação empreendedora ou se virando em outro idioma, do outro lado do mundo, durante o intercâmbio. Cada uma dessas cenas carrega um pouco de quem ensinou.

Homenagear os professores é reconhecer o trabalho de quem ensina hoje e preparar o caminho de quem vai ensinar amanhã. O legado de um educador se revela nos alunos que formou e, muitas vezes, nos professores que inspirou. Vinte anos depois, sigo acreditando que a escola mais preparada para o futuro é aquela que cuida bem de quem ensina.

Márcia Amorim Pedr'Angelo é psicopedagoga, fundadora das escolas Toque de Mãe e Colégio Unicus, e coordenadora da Unesco para a Educação em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

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